quinta-feira, 19 de maio de 2011

Descansa em Paz

Sempre me questionei relativamente à existência de Deus e cheguei a uma altura que não era, definitivamente, crente do mesmo.
Chegou o dia em que tive que me apoiar em qualquer coisa e a única que encontrei foi Deus, e acreditei que de nada me custava tentar e pôr em prática as minhas rezas, tão pobres quanto o sentido de vida que eu via diante de mim. Não me valeu de nada e sempre ouvi dizer que era sim, a fé que importava quando invocado Deus, e era mesmo a fé que se tinha apoderado de mim por completo. Percebi que tinham sido escusadas todas e quaisquer palavras e apelos perante Deus, porque apenas um dia após isso, tudo se sucedeu.
Nunca me tinha sentido tão sozinha no meio de tanta gente, nunca tinha sentido uma dor tão grande no peito provocada pelos repentinos batimentos do meu triste coração. Os meus olhos, vidrados, apenas reflectiam a mágoa que, uma vez, se tinha apoderado também de mim. Toda eu escorria confusos sentimentos pelas lágrimas que caíam incontrolavelmente dos meus olhos, que pestanejam vezes sem conta, sem saberem o que realmente estavam a ver. O que é certo é que viam lágrimas, gemidos e solidão. Eu própria sentia uma solidão interior que sabia que jamais seria ocupada.
Inúmeros corpos desorientados se dirigiam a mim e abriam os braços num gesto de desespero e eu sentia as suas lágrimas que molhavam o meu rosto, unindo-se com as minhas, que como um riacho, não paravam de escorrer. O pânico era tanto que eu própria já não sentia absolutamente nada e não estava minimamente crente da ocorrência.
Mais tarde, muito mais tarde, interiorizei-me. Apercebi-me do egoísmo da nossa parte em querer que alguém permanecesse com um cruel sofrimento, já para não falar, de uma dimensão extrema. Acabei por compreender que foi um alívio o meu querido Pai ter deixado de sofrer. Amar-te-ei sempre.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

cinco mil e quatrocentos segundos

E mais uma hora e meia passou, acompanhada por palavras, confissões, sorrisos, reflexões, até que eu declarei que é a isto que me agarro, à escrita.
Existe algo dentro de mim que me diz que talvez não deva confiar, de todo, em alguém, e que as palavras sejam talvez as minhas melhores amigas de sempre. Exponho-as, una-as, formo nexos, textos, verdades que talvez nunca foram ditas, e, que, de certa forma, talvez nunca venham a ser.
Nesses meros 5400 segundos, tive um pequeno momento de abstracção de quem me dirigia a palavra e olhei. Olhei em redor, olhei, olhei mil vezes. Havia tanto para olhar, tanto por descobrir, tanto por interpretar. Dei por mim rodeada de coisas desvalorizadas. Pilares que seguravam o tecto que me acolhia, árvores que ofereciam oxigénio, candeeiros que me iluminariam as noites, paredes que me equilibravam, pássaros que gritavam uma liberdade invejável, brisa que me acalmava, tudo aquilo que me levava a pensar. Achei indecente, tal desvalorização, por parte de todos, relativamente a algo que nos é indispensável. Pilares que sujamos, tectos que desprezamos, paredes que escrevemos, pássaros que assustamos, brisas que desejamos que desapareçam, tudo nos leva à saturação e desvalorização. O interesse pelo essencial desapareceu, toda a superficialidade se apoderou do interesse geral de qualquer um.
E de repente, voltei à realidade, e lá estava, alguém, a chamar por mim, perguntando-me o porquê de tanta distracção naquele momento. Expliquei que há coisas formidáveis sem as quais não viveríamos e que desprezamos loucamente. Não dei qualquer outra justificação, não pronunciei qualquer outra palavra para além daquelas. Surpreendi quem me fazia companhia, pois esse alguém não fazia a mínima ideia do que eu quis dizer, muito menos se eu estaria boa da cabeça, ou não.
Por momentos, voltei a apagar-me, era apenas eu e os meus pensamentos. Estava tal e qual um louco, não ouvia nada, ninguém, quieta, ali, de olhos vidrados, a sorrir. Corriam-me imagens pela cabeça, momentos inesquecíveis e que valorizo ao máximo, que sei que vão ser multiplicados por muitos mais. Existe alguém, que sei, que está sempre presente, seja qual for a circunstância. Sei que voltei a conjugar o verbo amar, e sei que amar não é nada mais, nada menos, que um sinónimo de "inexplicável".
Sinto-me enlouquecida por tudo. Até um dia.

Perco-me

Sem que dê conta, perco-me em pensamentos. Reflito sobre coisas que tenho a certeza que ninguém se irá preocupar com. Penso que, neste momento, estar aqui ou não estar, é igual e pergunto-me vezes sem conta "Porquê?" e chego à conclusão que não serei, de todo, a única com a estas perguntas e mesmo que não tenha certezas disso, concentro-me sobretudo nisso na tentativa de me aconchegar psicologicamente.

Apesar de crer, a cada dia que passa, que tudo acontece por um motivo, passo horas a fio em busca de motivos possíveis para determinados acontecimentos e, ainda assim, fracasso. Sim, ainda tenho muito para aprender e perceber, mas já aprendi tanta coisa que perferia ter aprendido mais tarde, já mudei mil vezes, já troquei de opiniões vezes sem fim, já cometi tantos erros, já cresci tanto sem sequer darem conta.

Observo, concluo, aplico, acerto, erro, cresço, escrevo.

(Dez10)

Tempos

E um dia pronunciei a expressão "para sempre". Convenci-me a mim mesma que pessoas seriam para sempre e, que nada iria mudar. Enganei-me. Parte dessas pessoas não têm nem metade do significado que já tiveram, e algumas, não passam de meros desconhecidos. Estou definitivamente afastada de pessoas que em tempos foram as pessoas mais importantes da minha vida e que eu tinha a certeza que nunca as iria perder nem por um momento, tinha a certeza que iria ser "assim" para sempre e não punha sequer em causa, o facto de as coisas mudarem com o tempo, e os conflitos se desencadearem quando menos se espera.

Os dias foram passando, tornando-se meses, novas pessoas pessoas foram aparecendo, bem como novos momentos e experiências se foram tornando rotina. Certos amigos foram ficando para trás, pessoas que eu sempre amei com todo o meu coração e que jamais as trocaria por alguém. Fui-me apercebendo, aos poucos, que estava errada. Não era para sempre. Eu tenho 14 anos, longe de mim saber apenas um terço do meu futuro. Afastei-me mais que nunca de melhores amigos, que sei que nunca irei encontrar iguais, mas o mal já está feito e voltar atrás está mais que fora de questão. Tenho pena, mas actualmente, os que tenho comigo, são-me suficientes e o que já lá vai, já lá vai, não há volta a dar. Obrigada pelos outros tempos.

(Dez10)